Cultura Cultura
A revolta de escravisados na Fazenda da Gironda
Um capítulo de resistência negra em Além Paraíba que poucos conhecem
20/11/2025 20h17 Atualizada há 7 meses
Por: Redação Fonte: Mauro Senra

A história de Além Paraíba guarda um episódio marcante de resistência negra, ainda desconhecido pela maioria da população: a revolta dos escravizados na antiga Fazenda da Gironda, em 1874. O caso, um dos mais significativos movimentos de insurreição escrava do século XIX na região, revela a força, a coragem e o enfrentamento de homens e mulheres submetidos ao regime escravocrata no Vale do Paraíba.

A escravidão marcou o Brasil por mais de 300 anos. Entretanto, ao contrário da visão equivocada que ainda circula, os africanos escravizados nunca aceitaram passivamente a violência e o domínio de seus senhores. As formas de resistência foram diversas: desde fugas e sabotagens até revoltas abertas, muitas delas pouco registradas, mas reconhecidas por historiadores como parte essencial da luta cotidiana desses homens e mulheres.

Continua após a publicidade

Com o fim do tráfico intercontinental, em 1850, a reposição da mão de obra escravizada tornou-se cara e difícil. No Vale do Paraíba, região de forte produção cafeeira, isso gerou tensões e maior exploração dentro das fazendas. Grandes proprietários passaram a comprar escravizados de outras províncias — especialmente de Pernambuco — o que aumentou conflitos, pela diferença de hábitos, rotinas e graus de violência.

Foi o que ocorreu na Fazenda da Gironda, em São José de Além Parahyba (hoje Além Paraíba). Os escravizados recém-chegados de Pernambuco não aceitaram o sistema de trabalho imposto pela família Teixeira Leite. Segundo registros históricos e relatos preservados ao longo das décadas, esses trabalhadores organizaram uma rebelião em 1874. Uma tradição oral afirma que um membro da família escravocrata foi morto e esquartejado pelos revoltosos — uma ação extrema que demonstra o nível de tensão e desespero vivido na época.

Um documento da época descreve que a proprietária da fazenda, Maria Guilhermina Cândida Teixeira Leite, chegou a ser expulsa pelos próprios escravizados, que assumiram o controle da produção, reorganizaram o trabalho e até modificaram os dias de descanso. O delegado Joaquim Barbosa de Castro, o Barão de Além Parahyba, foi encarregado de acompanhá-la de volta à fazenda, mas as autoridades evitaram repressão violenta por medo de que outras fazendas da região fossem inspiradas pelo movimento.

A revolta da Gironda, no entanto, não foi um caso isolado. Outras propriedades do Vale do Paraíba registraram, no mesmo período, insurreições semelhantes, incluindo a tomada da Fazenda Santa Ana da Barra, em Mar de Espanha, onde escravizados chegaram a controlar a produção por meses.

Esses episódios revelam que os escravizados não eram sujeitos passivos, mas agentes ativos na luta por dignidade, melhores condições de vida e, muitas vezes, pela própria liberdade. A revolta da Gironda representa um capítulo importante da memória negra de Além Paraíba — um fato histórico que precisa ser reconhecido como parte da identidade do município.

O texto histórico base desta reportagem é de autoria do professor e historiador Mauro Senra, estudioso da história de Além Paraíba há muitos anos, e foi extraído do blog “Além Paraíba História” (https://alemparaibahistoria.blogspot.com).