
“É cômodo — e muito brasileiro — comentar a banda da arquibancada, dizendo que o ritmo não presta, que o maestro não entende nada, que os instrumentos desafinam.”
_____________________________________________________ João Pedro de Oliveira
Desenvolver políticas públicas é entrar num campo onde os mapas oficiais nunca bastam.Há sempre muito mais território do que aquilo que está desenhado nos decretos. Há sempre mais vida pulsando nos becos, nas praças, nos coletivos, nos gestos invisíveis, do que cabe nos organogramas. Por isso, políticas públicas não são meras engrenagens administrativas — são teias: estruturas sensíveis, complexas, interdependentes, que só funcionam quando entendem aquilo que conecta, aquilo que separa e aquilo que sustenta.
Uma política pública que se preze deve disputar território. Território físico, sim, mas também — e principalmente — territórios de afeto, de convivência, de saberes, de memória, de imaginação. O mundo já disputa esses territórios diariamente, oferecendo abandono, desesperança, soluções fáceis para dores complexas, caminhos marginalizados como se fossem destino inevitável. Se o Estado não disputa, alguém disputa no lugar dele. E raramente para o bem.
É por isso que políticas públicas precisam ser presença, e não apenas projeto; precisam ser gesto, e não apenas papel.Porque — e aqui vale a velha verdade — o papel não aceita desaforo.Quando você escreve uma opinião, ela fica ali. Quando escreve uma política, ela também fica ali: registrada, cobrada, lembrada. Escrever é se responsabilizar; governar, mais ainda.Mas responsabilizar-se exige entender o que nos aproxima. Democracia não é o reino da unanimidade — é o exercício cotidiano de identificar os pontos de conexão, os valores mínimos partilhados, as dores repetidas, as necessidades comuns. É ali, nesse terreno compartilhado, que se constrói futuro. Fazer política sem olhar para o que nos une é como tentar erguer casa sem alicerce.
Ao mesmo tempo, não basta celebrar semelhanças. Uma gestão democrática madura olha de frente as diferenças, não para hierarquizá-las, mas para compreendê-las. Entre culturas não existem superioridades — existem histórias distintas, existências paralelas, comunhões possíveis.Diferença não é obstáculo; é matéria-prima. É aquilo que dá forma à teia.E se democracia é teia, ela não pode ser construída isoladamente. Por isso, vale a provocação que intitula esta coluna:
Quer saber como a banda toca? Toque nela!
É cômodo — e muito brasileiro — comentar a banda da arquibancada, dizendo que o ritmo não presta, que o maestro não entende nada, que os instrumentos desafinam. Difícil é descer pro chão da sala de ensaio, ouvir, testar, ajustar, tocar junto. Opinar sem tocar é fácil; comprometer-se é outra história.E aqui entra a questão-chave: ser cidadão não é ser oposição automática a tudo que existe.
Ser cidadão é se entender parte da obra.Parte da cidade.Parte da teia.Todos nós temos um lado, um partido, uma visão de mundo — e isso é legítimo. O problema é quando esse lado serve apenas para proteger mandatos ou gritar a falta deles, e não para transformar realidades. Políticas públicas exigem coragem de atravessar fronteiras partidárias, reconhecer soluções bem-vindas até de quem não pensa igual, e construir comunhão de ideias em nome de algo maior que qualquer sigla: a vida concreta do povo.
A banda não toca só com o maestro; toca com cada instrumento afinado, com cada músico disposto, com cada escuta ativa.Uma cidade também.Por isso, ao invés de cultivar a lógica da trincheira — “eu de um lado, você do outro” —, talvez seja hora de adotar a lógica da teia: muitos pontos, muitas diferenças, muitos caminhos, mas todos tensionados pela mesma intenção de futuro. O conflito existe, sim, mas o comum também existe — e é nele que se constrói.
Se queremos políticas públicas que cuidem das pessoas, que ocupem territórios antes abandonados, que disputem afetos contra a lógica do abandono, que reconheçam diferenças sem criar hierarquias, então precisamos tocar juntos.
Tocar com seriedade, com escuta, com responsabilidade.No fundo, é simples:Quem não toca não sabe.Quem toca transforma.E a democracia, essa bela e difícil obra coletiva, só existe de verdade quando, em vez de apontar para a banda, a gente estende a mão para o instrumento e decide tocar também.