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É PRECISO CHAMAR AS COISAS PELO NOME

Coluna de João Pedro de Oliveira

Redação
Por: Redação
10/03/2026 às 15h48
É PRECISO CHAMAR AS COISAS PELO NOME

Há certa coragem em chamar as coisas pelo nome. Parece simples, mas não é. Em tempos de eufemismos, de frases que contornam a realidade e de discursos que transformam tudo em “processo”, admitir uma derrota tornou-se quase um ato de rebeldia.

Perder é perder. E dizê-lo em voz alta não deveria ser motivo de escândalo. Criamos uma cultura que tem medo da palavra derrota. Ela precisa ser suavizada: “não foi desta vez”, “foi aprendizado”, “era apenas um passo”, “faz parte da jornada”. Nada disso é mentira — muitas vezes, é mesmo, ou melhor: é uma história que não teve a oportunidade de acontecer. Contudo, antes de qualquer aprendizado, antes de qualquer lição edificante, há um fato bruto que precisa ser reconhecido:

Perdemos. Sim, levante-se, nós perdemos hoje.

A dificuldade de admitir a perda revela algo curioso sobre o nosso tempo: queremos todos os significados da vitória sem atravessar a dignidade da derrota. Queremos o mérito do esforço, a narrativa da superação e o brilho do reconhecimento — mas sem o desconforto de olhar para o resultado quando ele não vem.

Entretanto, a vida não funciona assim. Perder não é, necessariamente, fracassar. Fracasso é outra coisa. Fracasso é desistir da própria história; é perder a capacidade de seguir em frente, de reorganizar o caminho, de continuar jogando. A derrota, não. A derrota é um episódio — às vezes doloroso, às vezes injusto, às vezes inevitável —, mas ainda assim um episódio. Quem vive, perde. Perde eleições, perde oportunidades, perde argumentos, perde tempo, perde pessoas, perde disputas que julgava ganhar. E  há nisso uma dimensão profundamente humana. A experiência da derrota nos devolve à escala real da vida: somos limitados, falíveis e atravessados por circunstâncias que não controlamos. Talvez por isso a derrota seja tão pedagógica, ela nos obriga a abandonar a fantasia de que tudo depende apenas de nossa vontade. Revela o tamanho das forças que nos cercam, dos contextos que nos moldam e das escolhas que fazemos — certas ou erradas. Perder é, muitas vezes, o momento em que a realidade deixa de ser teoria e passa a ser experiência.

Há, porém, algo ainda mais raro: perder com dignidade. Dignidade não significa fingir que não doeu. Não significa sorrir enquanto tudo desmorona. Dignidade é reconhecer o resultado sem deformá-lo. É não transformar o adversário em inimigo moral apenas porque venceu. É não reinventar a história para salvar o próprio orgulho. A dignidade da derrota possui uma beleza silenciosa. Ela revela caráter. Ganhar é fácil de explicar. A vitória sempre encontra narradores generosos. A derrota, porém, exige honestidade. Exige um olhar sem maquiagem sobre o que aconteceu. E, paradoxalmente, é nesse momento que algo se abre. Quando alguém aceita a derrota, algo se reorganiza por dentro. A realidade deixa de ser uma luta contra os fatos e passa a ser um terreno possível de reconstrução. Quem consegue dizer “perdi” descobre que a palavra não o destrói; ao contrário, liberta-o da necessidade de fingir.

Talvez seja isso que falte um pouco ao nosso tempo: aprender a perder sem transformar a derrota em tragédia moral. Aprender que o mundo não termina quando um projeto falha, quando um sonho se atrasa ou quando um resultado não vem. Aprender que perder faz parte da biografia de qualquer pessoa que tenha coragem de tentar.

No fundo, chamar as coisas pelo nome é um exercício de maturidade. Perder é perder. Eu já perdi. E dizer isso em voz alta tem algo de profundamente libertador. Não diminui quem eu sou, não apaga o que fiz, nem destrói o que ainda posso construir. Apenas coloca a realidade em seu devido lugar.

Agora, caro leitor, lhe devolvo a pergunta: Você perdeu ou apenas prefere dizer que deixou de ganhar? Depois de responder, te digo qual seu tipo de competidor. 

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